Se Copacabana alçou fama mundo afora, o charme de um pedaço do bairro contribuiu para tanto prestígio. Delimitada pela Avenida Princesa Isabel e pela Rua Inhangá, a região do Lido já concentrou o melhor da boemia carioca, como palco de encontros de músicos da bossa nova.
As ruas do Lido abrigam ainda joias da arquitetura art déco, resguardadas hoje por uma Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac). Bem distante do passado glorioso, esse trecho de Copacabana entrou em decadência, fato que 20 empresários da área agora decidiram reverter.
Eles acabam de criar o polo gastronômico, e também cultural, do Lido, com a proposta de revitalizar a região, trazendo de volta o glamour perdido. Para isso, vão criar eventos ao ar livre como forma de atrair o público, incluindo aí os próprios moradores do bairro.
— O Lido reúne história e tradição, além de um belo conjunto arquitetônico. Queremos que não apenas turistas, mas os próprios moradores daqui voltem. Pessoas que moram na Avenida Atlântica, por exemplo, pegam seus carros e vão jantar no Leblon, embora haja excelentes opções a apenas uma quadra de distância de onde moram — diz o presidente do polo, Rodrigo Tavares, que já encaminhou à prefeitura um documentos com as demandas da região.
O polo, oficializado no início do mês, reivindica do poder público, como contrapartida, melhorias na infraestrutura do Lido, como iluminação pública, poda de árvores, combate à ocupação desordenada das calçadas e, claro, segurança.
O Grupo já realizou o primeiro evento na praça O grupo de 20 empresários, que inclui donos de 25 restaurantes, academia de ginástica, tabacaria e outras lojas, criou o slogan “O Lido é lindo” e, no fim de novembro, realizou o primeiro evento na Praça do Lido, com apresentações musicais. Os restaurantes ofereceram um festival de cardápios especiais.
A empresária Simone Theisein, dona do Bistrô Fogo Carioca, foi a primeira a perceber que os comerciantes precisavam se unir para revitalizar esse pedaço de Copacabana. Ela entrou em contato com os colegas do ramo da gastronomia e foi dado o pontapé inicial.
— Para revitalizar o Lido, que já foi uma área nobre, era preciso unir os empresários da região. Quando você reivindica algo individualmente ao poder público, não tem tanta força — explica Simone.
Do passado de glória do Lido, apenas o Hotel Copacabana Palace permanece cercado de prestígio. Mas esse trecho de Copacabana já abrigou outros ícones cariocas, como o lendário Beco da Garrafas, na Rua Duvivier que, no início dos anos 60, era endereço de quatro boates: Ma Griffe, Bacará, Garrafas, na Rua Duvivier .
Outro endereço dourado do bairro era o sofisticado restaurante Le Bec Fin, de cardápio francês, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Entre os anos 50 e 70, a casa reunia como clientes o “quem é quem” da sociedade carioca. A casa fechou as portas em 2000, após uma ordem de despejo.
O conjunto arquitetônico também rendeu prestígio ao Lido, que abriga exemplares do estilo art déco. São fachadas e portarias construídas entre as décadas de 20 e 50, cujo valor foi reconhecido pela prefeitura, que, em outubro de 1992, criou, por meio de decreto, a Apac do Lido As edificações protegidas ficam principalmente nas ruas Ronald de Carvalho, Fernando Mendes, Duvivier, Ministro Viveiros de Castro, Belford Roxo e na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Um dos imóveis, o Edifício Guahy, na Ronald de Carvalho 181, projetado em 1932, é tombado.
Empresários querem incentivar passeios a pé Esses prédios fazem parte hoje de circuitos de passeios turísticos, que, no entender dos integrantes do polo, precisam ser incentivados.
— Mas, para isso, é preciso que as pessoas tenham segurança para fazer as caminhadas pelas ruas — diz Simone.
Segundo o secretário especial de Desenvolvimento Econômico Solidário, Marcelo Henrique, o Lido se tornou o 20o. polo econômico, criado por decreto pela prefeitura, dentro do programa Polos do Rio.
— O Lido é o caçula dos polos e não tenho a menor dúvida de que será um sucesso. A proposta do programa é transformar esses polos em espaços mais civilizados dentro da cidade.
Eles, além de gerarem empregos e impostos, servem para revitalizar suas regiões. Por isso, a prefeitura entra com o especial interesse econômico e os empresários promovem eventos musicais, gastronômicos e outros — diz Marcelo, acrescentando que a criação do Polo do Lido surtiu outro efeito positivo.
— Com o fechamento da boate Help, tínhamos receio de que o movimento de prostituição migrasse para o entorno da Praça do Lido, mas nos antecipamos e a região passou a desenvolver atividades de importância social e econômica.
FONTE:
Jornal O Globo, edição de 20 de dezembro de 2009