Carregando...

Abandono, o pior inimigo dos fortes

Publicado em 07 de Junho de 2010 - 07:21

As trilhas e escadarias de pedra cobertas por mato, os cadeados enferrujados que já não abrem mais e o desgaste aparente das construções dão a dimensão do abandono. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o conjunto paisagístico da Ilha da Boa Viagem, em Niterói, guarda um dos fortes, hoje em ruínas, erguidos no século XVII para a defesa da Baía de Guanabara. Prestes a completar 300 anos, a Fortaleza da Laje, na entrada da Baía, está abandonada desde 1957, quando foi desativada. Esses e outros fortes, patrimônios culturais que contam um pouco da História do Rio, estão desaparecendo.   
Para se ter uma ideia, das 58 fortalezas erguidas entre os séculos XVI e XX para proteger a região litorânea da cidade, apenas nove sobreviveram intactas. Onze estão em ruínas e 38 foram varridas do mapa pela ação do tempo. 
 
Na Ilha da Boa Viagem, o abandono não tem dono. 
 
Além do forte em ruínas, a ilha abriga um conjunto de edificações históricas e foi cedida pela Marinha do Brasil à União dos Escoteiros do Brasil, em 1938. Há pelo menos dois anos que o grupo tenta restaurar os imóveis, mas o processo não vai adiante. Representantes dos escoteiros culpam a empresa contratada por eles — a Fábrica Fagos Arquitetura — pela demora. A empresa, por sua vez, culpa o Iphan, alegando que o instituto não para de fazer exigências ao projeto de restauração. 
 
Já o Iphan argumenta que a proposta tem falhas e por isso não foi aprovada ainda. 
 
Iphan: é preciso rever levantamento sobre igreja De acordo com o superintendente do Iphan no Rio, Carlos Fernando Andrade, o último parecer dos técnicos, de abril deste ano, destaca a necessidade de uma revisão do levantamento sobre o prédio da igreja. 
 
Foi verificado, por exemplo, que o desenho da cobertura não condiz com a realidade: — Se as exigências forem cumpridas, vamos aprovar o projeto. Acho dois meses um tempo razoável para se adequarem. 
 
Se isso não acontecer, podemos entrar com uma ação civil pública para obrigá-los a restaurar. 
 
Isso poderia levar dez anos. O melhor é tentar resolver de forma amistosa. 
 
A pequena Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, erguida em 1650, também funcionava como um forte, com baterias voltadas para o mar. Com a invasão francesa, em 1711, a igreja foi destruída. Restaram apenas duas paredes. 
 
— O Mosteiro de São Bento também teve baterias. Numa determinada época, colocavam canhões nas construções em pontos estratégicos, inclusive igrejas — contou o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti, professor da UFF. 
 
Em 1938, o conjunto arquitetônico da ilha foi tombado pelo Iphan. O lugar chegou a receber turistas, e missas aconteciam sempre no último domingo de cada mês. Com o risco de desabamento, no entanto, as construções foram interditadas. As missas e visitas estão suspensas há pelo menos dois anos. 
 
Com as chuvas que caíram em abril, muitas árvores desabaram e há deslizamentos de terra em diferentes pontos da ilha. 
 
— A restauração terá que incluir um trabalho de estabilização do solo — comentou Augusto Veiga, dono de uma empresa, ligada à Fábrica Fagos Arquitetura, que tenta conseguir verba para a restauração. 
 
Já na entrada da Baía, a Fortaleza da Laje, como é conhecido o Forte Tamandaré, foi erguida em 1714 e destruída durante a Revolta da Armada, em 1893. 
 
Reerguida entre 1896 e 1906, a fortaleza também recebeu presos que viraram personagens históricos, como José Bonifácio e o poeta Olavo Bilac. Hoje, está abandonada, mas ainda guarda seis canhões. O historiador Adler Homero de Castro, do Iphan, acredita que a tendência é a fortaleza desaparecer. 
 
— O local é de difícil acesso, e fica complicado pensar em algum destino para a ilha. Com o mar agitado, não se consegue chegar ao forte. Dependendo da maré, a ilha fica isolada duas semanas. A preservação se dá através do uso, e ali não há condições — diz. 
 
Pequena ilha tem ruínas de um antigo forte Na pequena Ilha do Catalão, na Baía de Guanabara, há ruínas de um antigo forte pouco citado. A construção está escondida pela mata do Parque Frei Leão Vellozo, reserva ambiental administrada pela UFRJ. Pescadores dizem que o forte foi erguido na época da Segunda Guerra Mundial, mas historiadores garantem que a construção é mais antiga. Uma grande murada, janelas e o portal ainda estão preservados. 
 
— Com a independência do Brasil, a partir de 1823 houve um grande plano de fortificação do país para resistir a possíveis invasões dos portugueses ou de outros países. A construção da Ilha do Catalão pode ter sido uma das fortificações erguidas na época — disse Nireu Cavalcanti. 
 
No interior do estado, um dos fortes mais belos é o do Leme, na Ponta do Leste, em Angra dos Reis, também abandonado. 
 
Inaugurada em outubro de 1911, a construção ainda tem dois canhões Armstrong, cada um com 28 toneladas. 
 
Eles nunca foram utilizados e hoje estão enferrujados. 
 
De acordo com Adler, o lugar não tem valor histórico e por isso não é preservado. 
 
— Na realidade, o forte nunca entrou em operação — disse o historiador.  


Fonte: Taís Mendes (Oglobo – 06/06/2010)