IDEIAS entrevista Lefê Almeida
Entrevista com o produtor cultural Lefê Almeida, que fala sobre seu trabalho na Lapa e o potencial do Rio como cidade de cultura.
O senhor poderia falar do filme que o senhor está produzindo sobre a lapa?
O DVD que estamos produzindo se chama Eis Aí a Lapa, é um documentário em longa metragem que conta o tempo que eu passei na Lapa, ou seja, até 2004. É um DVD sobre a Lapa feito em conjunto com o Luís Guimarães, que é o diretor do filme. Vai sair em um encarte, junto com o livro A Lapa que Vivi, que é sobre a minha experiência no bairro. A Luciane Menezes, da Associação Brasil Mestiço, é a gestora do projeto. A Luciana faz parte do grupo Dobrando a Esquina, que foi quem começou na Lapa, lá em outubro de 96, com as primeiras produções musicais, no Arco da Velha.
Foi lá que vocês começaram o trabalho de revitalização?
Nós começamos a fazer essa produção da Lapa baseada no choro e no samba, na música popular carioca. Para mim, quem fez a Lapa de hoje foi a música popular carioca. Eu me envolvi muito com a Lapa porque eu sou um produtor musical e sou muito ligado com artistas e músicos do Rio. Eu sou um cara da Zona Sul, e para ouvir samba, maxixe, choro, a gente tem que vir pro Centro. O primeiro trabalho na Lapa foi um projeto de samba dentro de um antiquário, coisa que nunca tinha sido feita antes. Desde então fiz o trabalho do Lavradio Cem, em 2000 fiz a produção do Carioca da Gema, saí da Lapa só em 2004. Não sabíamos que ia dar no que deu, foi tudo bem carioca e feito por artistas, improvisado.
A iniciativa privada, os artistas e músicos ajudaram a tornar a Lapa o que ela é hoje, mas como o poder público pode organizar o local?
A primeira providência: ordenar o espaço público. Não dá pra tirar a Lapa da rua, ela é a Lapa. Quando o Estado Novo começou a reprimir as atividades nas ruas da Lapa, em 1937, ela entrou em decadência. Mas organização não é repressão, e é isso que a Lapa precisa.
O senhor poderia dar um exemplo?
Na sexta-feira fui fazer uma gravação na Lapa e tinha um grupo cheirando cola embaixo dos Arcos. Isso é péssimo pra imagem do bairro. Tem também a questão dos banheiros, a Lapa precisa de banheiros públicos. Outro problema são os ambulantes, barracas de cachorro quente deixam o som nas alturas, alguns estabelecimentos simplesmente não abrem na sexta-feira porque fica tudo muito caótico.
Em artigo para O Globo o senhor escreveu que existem várias Lapas espalhadas pelo Rio, o que quis dizer com isso?
O Rio de Janeiro é uma cidade que vive da cultura. Ele é conhecido como Cidade Maravilhosa por sua história e cultura. O município precisa ser desenvolvido com isso em mente. A via cultural pode desenvolver o comércio de várias regiões da cidade, mas muitas delas estão dominadas pelo tráfico, como é o caso da Mangueira, por exemplo. Na Lapa nós geramos emprego e renda para a população do local em vários setores. Ganharam os restaurantes, táxis, seguranças, músicos... tudo.
O que a população pode fazer para estimular a cultura no Rio de Janeiro?
Nós temos que valorizar a cultura regional. Copacabana tinha uma noite ótima, mas que foi arruinada com a chegada do rock, dos Beatles, Elvis Presley. O problema é que está tudo jogado. O público pode até apoiar a cultura, mas os investimentos não estão sendo feitos da forma correta. A cidade do samba, por exemplo, ela rende alguma coisa? Para quê esse projeto da cidade da música? O Rio de Janeiro não é, em si, a cidade da música? A praça Tiradentes, por exemplo, tem uma história tão rica quanto a da Lapa, musicalmente. Na primeira metade do século passado ela era o ponto dos teatros de revista. Chiquinha Gonzaga, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Mário Lago, todos eles estavam nos musicais dos teatros. É uma área que precisa de investimento para se desenvolver.



