Reciclar é preciso
De três anos para cá, os fast casuals — lugares que têm status de restaurante e agilidade de fast food — invadiram a cidade.
Toda esquina tem uma temaqueria ou outras versões de “ia”, que vão desde pizza gourmet até macarrão de olhos puxados. Com eles, veio junto uma grande quantidade de copos, pratos e embalagens descartáveis, que ajudam na rapidez do serviço, mas resultam numa quantidade imensa de lixo, diariamente.
Acontece que, por carência de uma engrenagem eficiente de reciclagem, todo esse material acaba não sendo reaproveitado. Para tentar mudar essa situação, o empresário Marcelo do Rio, sócio da pizzaria Vezpa, convocou alguns parceiros para se juntar a ele nessa empreitada.
— Só no trecho final do Leblon, a quantidade de lixo é tremenda, mas não adianta investir tempo e esforço se a coleta seletiva não for eficiente (segundo a Comlurb, é realizada coleta seletiva na região, uma vez por semana, gratuitamente) — justifica Marcelo, que produz, mensalmente, em sua pizzaria um volume de 40 mil litros de lixo, entre papel, latas e garrafas. — Juntos, podemos buscar soluções para criar um circuito verde possível.
A primeira sementinha do projeto foi plantada há duas semanas, quando Marcelo se reuniu com donos de outros restaurantes da região e entidades como a Associação Comercial do Leblon e o Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio). A partir daí, cada estabelecimento se comprometeu a fazer um levantamento de sua produção de lixo, de óleo e de tudo o que pode ser reaproveitado, além de buscar soluções para o problema.
— Essa é uma preocupação mundial hoje em dia — diz Pedro de Lamare, presidente do SindRio e sócio do Gula Gula, que faz parte do grupo. — O sindicato vai contribuir no desenvolvimento de soluções, oferecendo toda a sua estrutura e assessoria jurídica, promovendo encontros com especialistas e trazendo conhecimento de projetos de outros bairros e pólos.
Um dos casos de sucesso que devem servir para inspirar o grupo é o Rio Sustentável, uma iniciativa do Polo Novo Rio Antigo — que engloba Cinelândia, Lapa, Rua do Lavradio, Praça Tiradentes, Largo de São Francisco e Rua da Carioca —, implementado em 2008. Atualmente, três restaurantes fazem parte do projeto, o Rio Scenarium, o Santo Scenarium e o Mangue Seco. Desde que foi criado, até maio deste ano, já foram coletadas mais de 490 toneladas de lixo reciclável — uma média de 17,5 toneladas por mês —, gerando uma economia de mais de R$ 181 mil.
Economia? — Por produzirem uma grande quantidade de lixo, esses restaurantes pagam coleta extraordinária — explica a designer Daniela Ribas, integrante do SindRio, responsável pelo Rio Sustentável. — Além disso, como o lixo reciclável tem valor de mercado, o empresário doa esse material para cooperativas, que ganham ao negociar os resíduos.
Nada disso, porém, seria possível sem um trabalho forte de conscientização individual.
— É fundamental as pessoas saberem o impacto daquele papelzinho de bala, do micro, do individual — acredita Daniela. — Quando um começa a se multiplicar por vários, vira um estrago enorme.
Mesmo enquanto o projeto não sai do papel, os donos do pedaço não estão de braços cruzados. Cada um do seu jeito, eles vão absorvendo resoluções verdes em seu dia a dia.
No Soba Noodle Bar, a preocupação com o impacto da atividade sobre o planeta começou antes mesmo de a casa abrir, na escolha das embalagens onde são servidos os yakisobas. As caixinhas têm certificado de emissão zero de carbono. Um alívio para o meio ambiente que deixou a operação três vezes mais cara, mas que os sócios esperam tornar mais barata com a adesão de outros empresários.
— Com pequenas ações conjuntas, podemos aumentar esses cuidados de forma economicamente viável — defende Bruno Pauletti que, no restaurante, consome 3.500 caixinhas dessas por mês, além de 4.000 hashis e 2.400 copos descartáveis. — Fazendo grandes pedidos, juntos, teremos mais poder na hora de negociar o preço de embalagens descartáveis, além de dar preferência a empresas que se preocupem com o meio ambiente.
Outro endereço que investe em sustentabilidade desde sua inauguração é o Andy’s, que produz muito menos papel do que outros restaurantes. E a solução foi a mais charmosa possível.
Os pedidos são “tirados” pelos próprios clientes em brown bags customizadas, com as opções de bebida e comida. Assim, é possível economizar uma penca de bobinas e bloquinhos de papel entre a mesa e a cozinha. Os pedidos são registrados apenas digitalmente.
Mas o grande orgulho do empresário André Cunha Lima, um dos sócios do lugar, são os uniformes da equipe.
— Eles são todos feitos em tecido reciclado de garrafas PET — conta André, reconhecendo que, apesar de ter ficado mais pesada no bolso, a iniciativa valeu a pena. — Estamos contribuindo para um mundo melhor.
No futuro, espero fazer as embalagens naquele papel de semente para ser plantado. Aí não vou querer jogá-las fora.
Fonte: Resvita OGLOBO


